Quando
se fala em música, a fronteira entre o bom e o mau gosto é
nebulosa e muitas vezes esconde uma palavra que ninguém quer
pronunciar: preconceito.
Baião,
xote, xaxado. Lamê, cafona, brega. Axé, lambada, carimbó.
Jovem Guarda, iê-iê-iê, canção romântica.
Samba de morro, samba joia, partido alto, pagode. Música caipira
e sertaneja, guarânia e vanerão. Canção de
protesto. Pop. Heavy metal, rock progressivo, emo. House, tecno, electro.
Tecnobrega, forró, funk carioca, rap. Cada um desses gêneros
musicais tem seguidores aos milhões, mas também tem de
enfrentar exércitos às vezes reduzidos, mas sempre barulhentos,
de detratores.
Em
sua maioria, desperta ódio especial junto a consumidores tidos
como cultos, intelectuais, críticos, formadores de opinião.
Esses trazem sempre na cartola o argumento de preferir música
dita fina, refinada, sofisticada, mas tampouco seus gêneros prediletos
se safam de outros tipos de muxoxos, narizes torcidos e intolerâncias.
Música erudita. Jazz. Blues. Bossa nova. Clube da esquina. MPB.
Supostamente, estamos falando de estética, das distinções
entre o que se entende como música “de qualidade”
e “sem qualidade”, “boa” e “ruim”,
de “bom gosto” e “mau gosto”. A zona fronteiriça
entre os dois extremos é frequentemente nebulosa, pantanosa e
fugidia, daquelas de atolar em areia movediça quem exiba muita
certeza sobre onde está pisando. Ainda assim, há sempre
alguém disposto a decretar, pronta e despoticamente: “Brega
é lixo”, “música caipira não presta”,
“iê-iê-iê é uma porcaria”.
Atrás
das cortinas do “bom gosto” e do “mau gosto”,
esconde-se um bichinho do qual em geral preferimos fugir a 120, 150,
200 quilômetros por hora e que atende pelo nome de preconceito.
Será que eu desprezo o axé porque é péssimo
ou porque desejo me manter bem distante dos baianos periféricos,
pobres e pretos que o inventaram? Você detesta os emos porque
fazem rock muito pauleira ou porque não se dá bem com
seus figurinos esquisitões, soturnos, sexualmente indefinidos?
É ficar entre uma coisa ou outra, indubitavelmente? Ou a repulsa
(extra) musical nasce de uma gororoba mista disso tudo?
Militante
musical multiplicado em musicólogo, historiador, pesquisador,
crítico musical, escritor, engenheiro de som etc., Zuza Homem
de Mello enfrenta esse bicho de sete cabeças: “É
uma questão subjetiva, mas, se fosse só isso, não
haveria tanto problema e antagonismo. Existe quase uma intolerância
do bom gosto em relação ao mau gosto e certa inveja do
mau gosto pelo bom gosto. O cara de bom gosto não tolera o que
acha de mau gosto e o de mau gosto, não é que não
tolera, é que ele não alcança o bom gosto”.
Na opinião de Zuza, o aspecto não subjetivo dessa guerra
se concentra nos termos “educação” e “cultura”:
“O culto ao bom gosto é diretamente proporcional à
educação e ao nível cultural da pessoa”.
Ele
se vale de uma comparação entre música e gastronomia,
na qual há os que ficam no feijão com arroz e os que cultuam
paladares “sofisticados”. Mas justamente aí se insinua
a dúvida: ora, por acaso é ruim comer arroz, feijão,
bife e ovo frito? “No caso da gastronomia, um bom arroz com feijão
e bife é considerado vulgar por quem tem paladar refinado. Mas
é bom, e na música é igual. Dentro das diferentes
áreas rotuladas como de mau gosto, há quem dê uma
percepção de sinceridade, de verdade, que supera esse
desprezo e faz com que os de bom gosto se sintam atraídos. É
bom quando você sente verdade atrás daquilo.”
Zuza
exemplifica: “Tenho amigos jazzistas fanáticos que não
admitem nada da música caipira. Mas Rolando Boldrin, Inezita
Barroso... Aquilo é verdadeiro. Há pessoas fechadas e
abertas, aí você não pode fazer nada. Não
posso mudar meu amigo que acha a dupla Tonico & Tinoco desprezível.
Tem gente que só vai na Sala São Paulo, não tem
jeito”.
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