QUESTÃO
DE IDENTIDADE
Pois então, estamos meramente falando de “bom” e
“mau” gosto, ou há mais que miúdos de pato
embutidos no foie gras? “O preconceito poderia ser um elemento,
sim, determinando que se deixe de gozar das belezas e verdades que poderiam
ser apresentadas por quem não tem a mesma cultura e educação”,
responde Zuza. “Aí, quem não tem preconceito leva
enorme vantagem. Eu mesmo cometi muitos enganos na minha postura, depois,
vi que não era assim”, admite, e que quebre o primeiro
disco quem nunca o fez.
Nos
anos 1960 e 1970, o sírio-francêsbrasileiro André
Midani comandou, na gravadora Philips, o mais espetacular elenco reunido
pela dita MPB. Ali se demarcaram nitidamente divisões que ainda
hoje vigoram: nomes como Chico Buarque, Elis Regina e Caetano Veloso
vendiam relativamente pouco, mas rendiam à gravadora cacife e
prestígio cultural, enquanto operários pop, como Odair
José e Evaldo Braga, faziam tilintar as caixas registradoras
da multinacional. Midani, hoje aposentado, descreve a situação
pelo ponto de vista dos lojistas de música: “As lojas de
discos em geral pertenciam a donos de origem modesta, que se inibiam
em comprar das gravadoras gêneros musicais que eles consideravam
estranhos. Tinham medo de comprar música que desconheciam, que
poderia ficar encalhada no estoque. Melhor encomendar trilhas de novelas...”
Mas
ele abraça a hipótese do preconceito: “A música
existe para que as pessoas amem, chorem, sonhem, protestem, se emocionem.
Se ela faz esse papel com dignidade e eficácia, ela terá
cumprido sua missão e a chamada qualidade que vá para
o inferno. Estamos diante de questões de preconceito de classe,
sim. E de preconceitos de pertencer, como no futebol. Sou do Corinthians,
então sou inteligente, e você, torcedor do Cruzeiro, é
um imbecil”.
Em
2002, o historiador Paulo Cesar de Araújo cutucou um nervo doloroso
dos preconceitos musicais em Eu não sou cachorro, não
– Música popular cafona e ditadura militar. O livro, profundamente
perturbador para quem se tenha disposto a compreendê-lo, situa
nas diferenças e nos preconceitos de classe social o epicentro
do terremoto que separou europas de “bom gosto” de áfricas
de “mau gosto” e dividiu os brasileiros entre (poucos) “cultos”
e (muitos) “incultos”, simples e maniqueísta assim.
Paulo
Cesar destrincha um dos argumentos centrais de um livro empenhado em
reabilitar nomes como Waldick Soriano (autor dos versos abolerados “eu
não sou cachorro, não/ pra viver tão humilhado/
eu não sou cachorro, não/ para ser tão desprezado”),
Cláudia Barroso, Odair José, Diana, Paulo Sérgio,
Benito di Paula, Agnaldo Timóteo, Nelson Ned, Dom & Ravel,
Lindomar Castilho e dezenas de outros.
“Para
ser bem qualificado pelas elites culturais, o repertório musical
brasileiro precisa estar identificado ao que se considera ‘tradição’
(folclore, raízes do samba ou do forró) e/ou ao que se
considera ‘modernidade’ (influências de vanguardas
literárias ou musicais, jazz, bossa nova, tropicalismo)”,
inicia. “Artistas populares, desde Anísio Silva e Waldick
Soriano até Alexandre Pires e Zezé di Camargo são
considerados de mau gosto pelas elites culturais, porque não
estão identificados nem com a tradição nem com
a modernidade. Veja que o rapper mais elogiado e premiado é Marcelo
D2, exatamente porque ele aproxima o rap da batida do samba. Quanto
mais longe da tradição e da modernidade, mais perto do
mau gosto.”
Sua
conclusão é provocativa e pisa em calos intocados, mas
inchados, de intelectuais, formadores de opinião e consumidores
cultos: “Esse apartheid musical é também reflexo
da nossa desigualdade social. E isso se torna mais grave quando jornalistas,
historiadores, sociólogos e museólogos não problematizam
a questão e colocam seu gosto pessoal, ou o de sua classe social,
como parâmetro para definir o presente e o passado cultural da
nossa sociedade. Romper com essa visão autoritária e excludente
deve ser o esforço de cada um de nós que trabalhamos com
a memória”. Paulo Cesar demonstra que a cerca que separa
bons e maus é de arame farpado, mas é também maleável
e muda facilmente de lugar: “Para um fã de Gilberto Gil
ou Jorge Ben Jor, a música de um cantor como Waldick Soriano
parece muito simplória e banal. Mas, para um amante de jazz e
música clássica, a música de Gil ou Ben Jor pode
soar também muito simplória e banal. No passado, Lupicínio
Rodrigues e Luiz Gonzaga eram considerados de muito mau gosto e só
obtiveram reconhecimento da crítica quando seu período
de maior sucesso popular já havia terminado”.
E
oferece outro exemplo: “Os anos 1930- 1945 hoje são chamados
de ‘era de ouro da música popular brasileira’, mas
na época não foram percebidos assim pelas elites. Mario
de Andrade, por exemplo, se referia à produção
musical daquele período como ‘popularesca’. Em última
instância, o que vale é o poder de quem tem o discurso
competente para afirmar que tal produção é boa
ou ruim”.
Na
mesma direção, vai César Rasec, estudioso de cultura
e sociedade na Universidade Federal da Bahia (UFBA), de quem voltaremos
a falar mais adiante: “Tudo passa pela legitimação,
não importa quem seja o legitimador. Podem ser o papa, os meios
de comunicação, os acadêmicos. Só não
pode ser o povo. Pelo senso comum, o povo ‘não pode’
e ‘não sabe’ legitimar porque é marionete
conduzida pela força da grana de quem manipula a indústria
cultural”.